segunda-feira, julho 31, 2006

Mais uma estória de aldeia


A vala e o ti’ Nà’ciso

Hoje quero falar-lhe do ti’ Nà’ciso («tio» = sr. Narciso). Por acaso, aqui, para mim, a palavra «tio» aplica-se mesmo: era tio mesmo.
Este era uma das figuras mais típicas e com mais piada da terra. Viera para lá quando jovem, ali casara e lá fazia vida como barbeiro. Mas quem não sabe o que é e o que faz um barbeiro numa aldeia dos anos 40 / 60, vai ficar muito surpreendido com este ti’ Nà’ciso.
É que ele era, simultaneamente, uma espécie de médico popular e enfermeiro.
Muitas pessoas acreditavam mais nele do que nos médicos. Chegavam a vir do médico ali mostrar-lhe as receitas e perguntar se deviam ir à farmácia aviar os medicamentos ou não…

Um dia fui com ele a uma aldeia vizinha visitar uma doente, velhota, muito doente. Lá deu a sua «consulta». E regressámos.
À chegada, perguntaram-lhe se a senhora estava mal. E ele:
- Está. Está muito mal.
- Então e o que lhe receitou?
- Oh! Nada: disse-lhe para beber água do rego.
(O «rego» era nada mais, nada menos do que a valada de água comunitária que corria no meio da rua da aldeia para as pessoas regarem os seus prédios agrícolas.)

Mas não é essa a história que hoje queria contar.
É aquela da vala à porta de casa.

Um dia, melhor, uma noite – o ti’ Nà’ciso era muito «noiteiro» e muito boémio, como convém –, lá pelos anos 50, tinham aberto uma vala ali mesmo à porta dele, vala essa feita já depois de ele sair de casa nessa tarde e que impedia a entrada em casa de forma normal: exigia um pequeno salto. Ora a mulher dele, calculando que o homem já viria um tanto carregado dos maços, isto é, com o grão na asa (vá lá: com os copos, pronto…), o que fez?
Teve esta ideia brilhante: pôr um candeeiro à janela (ainda a luz eléctrica era fraquinha e o largo pouco iluminado…). O candeeiro à janela serviria assim, supostamente, para lhe chamar a atenção e alertá-lo para a vala. Mas deu exactamente o resultado inverso.
O ti’ Nà’ciso, lá pelas duas ou três da manhã, quando tartamudeou à entrada do largo onde residia, dá com o candeeiro à janela, fixa-se nele, como muito bem sabe quem alguma vez se entornou (a luz é uma obsessão) e, enquanto caminhava na exacta direcção da vala, mas sempre de olhos arregalados para a janela e para o candeeiro, vai gritando da rua para a mulher, com a típica linguagem arrastada da vinhaça e da cerveja (esta prende mais a língua, não é verdade?):
- Ó ‘Zabel, ó ’Zabel, o que é isso?
E zás. Cai dentro da vala, como estava bom de ver...


Ficou a estória (mais uma) para contar toda a vida. Até hoje.

1 comentário:

Anónimo disse...

ZÉ Carlos, larga o computador ... estás de férias!

Perde o vício de escrever por uns dias.